A nova alma do negócio

A nova alma do negócio
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23 de Janeiro
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Esqueça grandes investimentos em infraestrutura tecnológica, cronogramas de longo prazo e a obrigatoriedade de acertar. Também jogue fora a antiga máxima repetida por nossos avós de que é preciso guardar segredo para ter sucesso nos negócios. Com ela, descarte metodologias processuais ou ideias sobre produtos e serviços de capacidade e alcance limitados. E se tem receio de empreender na crise, repense.

O Brasil sempre foi reconhecido pela aptidão ao empreendedorismo muito pela característica criativa de seu povo e pelo poder de sedução que a possibilidade de ser seu próprio chefe exerce nas pessoas. Ter uma boa ideia, recursos para investir nela e um plano de negócio bem elaborado eram basicamente as condições necessárias para colocar o sonho em prática. Alguma coragem e ousadia davam o empurrão final para quem, por desejo ou necessidade, se lançava no caminho do empreendedorismo.

Tirando as características da personalidade e qualificação, todo o resto já ficou para trás. Vivemos um momento de transformação estimulado por provocações constantes e propósitos. O empreendedorismo digital está aí para nos ensinar sobre um novo jeito de tangibilizar ideias inovadoras, no qual o contexto econômico importa menos do que o potencial de escalabilidade de um produto ou a disposição de seus idealizadores para serem colaborativos.

No passado, a tecnologia era uma barreira de entrada para quem queria empreender, já que os custos para aquisição de servidores, softwares e licenças eram muito altos. Sem a tecnologia, era muito difícil atingir escala, o que limitava o crescimento das empresas. Para resolver essa questão, investia-se cada vez mais dinheiro em grandes estruturas internas, o que tornava a empreitada mais complexa se o ambiente econômico fosse desfavorável. Agora, a acessibilidade é facilitada e, mesmo que se tenha necessidade de máquinas superpotentes para fazer um processamento em inteligência artificial, por exemplo, o preço é customizado já que infraestrutura e serviços estão em nuvem.

É nesse ambiente que as startups se desenvolvem. São empresas que resolvem problemas reais, do mundo real, por meio da criação de uma solução com potencial de escala, usando a tecnologia como meio para atingir o maior número de clientes ao mesmo tempo. Para além do campo idealizador e da utilização de ferramentas tecnológicas para tocar seu projeto, esses empreendedores também se desobrigam de acertar. Eles testam hipóteses e as incrementam ao longo do tempo. Se erram, voltam a experimentar.

O planejamento continua sendo fundamental para negócios bem-sucedidos, mas os prazos encurtaram. A construção se dá ao longo do tempo justamente porque os testes aprimoram continuamente o plano inicial. Desse modo, o resultado de um projeto fica atrelado a um conjunto de sucessivas pequenas implementações que promovem um maior engajamento dos clientes. Como posso me tornar mais simples? Como posso otimizar o tempo do usuário e entregar mais e melhor? São as perguntas frequentes de um profissional cada vez mais dinâmico e realizador.

Mais do que uma simples ideia, os novos empreendedores também têm o desejo genuíno de mudar o patamar das entregas de produtos e serviços para a sociedade. Buscam agregar inovações que realmente ajudem as pessoas e estão plenamente disponíveis em colaborar uns com os outros. Querem contribuir com o ecossistema ao invés de competirem entre si. E fazem dessa mudança de paradigma o trampolim decisivo que ajuda o seu negócio e o restante da cadeia a crescer. Chegam ao ponto de combinarem soluções para produzir um terceiro produto ainda mais eficiente e completo, desprendidos daqueles segredos inconfessáveis que nossos avós acreditavam ser o diferencial para o sucesso.

É por isso que grandes empresas se aproximam desse novo modelo de se fazer e pensar negócios. É um ganha-ganha contínuo em uma quase simbiose entre o tradicional e o novo. Não por acaso, os espaços de coworking ou incubadoras de startups se multiplicam, o que é agregador para todos. Ambientes motivadores trazem inspiração para que haja transformações positivas em processos tradicionais. Alimentam o ecossistema, criam densidade e promovem ainda mais interações, tão necessárias para o desenvolvimento de novas soluções.

E se o contexto econômico é mais difícil, não há impedimento para que haja fluxo, já que a colaboração se sobrepõe à competição e a mentalidade de escassez, independentemente de o ambiente ser ou não de abundância, estimula a criatividade. Nesse sentido, o ideal é pensar soluções digitais do início ao fim do processo, o que certamente reduz os custos e torna desnecessário depender de um exército para fazê-las funcionar. Sendo assim, o valor agregado de novas ideias pode ser medido por sua capacidade de escala, quando uma mesma estrutura de suporte e operação pode multiplicar seu alcance.

Estamos falando de um ecossistema poderoso, de um novo modelo de empreendedorismo em que cada agente da cadeia tem o seu papel. Seja a incubadora, o investidor, a universidade ou quem disponibiliza o ambiente para que as interações aconteçam. Se parte de um ingrediente inesperado na receita ou de uma sacada genial, o que importa hoje é a colaboração, o investimento digital, ideias inovadoras e bons propósitos. Essa é a nova alma dos novos negócios.

Lineu Andrade é diretor de Tecnologia do Itaú Unibanco e responsável pelo Cubo Itaú, maior centro de empreendedorismo da América Latina.

 

Fonte: Estadão

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