Saúde é responsabilidade de todos

Saúde é responsabilidade de todos

O Dr. Drauzio Varella concedeu entrevista exclusiva ao Portal Meta News, falando sobre a responsabilidade de cuidar da própria saúde e investir em ações preventiva

Entrevistas
10 de Outubro
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Há uma crença da população de que a saúde deve ser responsabilidade do Estado ou das empresas que oferecem convênio médico como benefício. Entretanto, cada vez mais a conta não fecha, os custos dos planos têm aumentado sistematicamente e os governos, especialmente os estaduais e municipais, não conseguem dar conta da demanda.

Convidado especial de evento promovido pela Gympass, fornecedora de benefício-convênio com academias, o Dr. Drauzio Varella, concedeu entrevista exclusiva ao Portal Meta News, e falou sobre a responsabilidade das pessoas em cuidar da própria saúde e investir em ações de prevenção.

 

O senhor sempre diz que as pessoas empurram a responsabilidade pela saúde para a empresa ou para o Estado. De que forma o senhor acredita que as pessoas deveriam pensar na qualidade de vida no ambiente de trabalho?

 

Isso é uma coisa que vai acontecer. Não é uma decisão que se possa tomar, esperando que o Estado vai cuidar de mim porque saúde é um direito de todos, ou a empresa e o plano de saúde são responsáveis. Não vai ter dinheiro para isso. É como falar da reforma da Previdência. Não vai ter dinheiro para pagar a aposentadoria de todo mundo. Da mesma forma é a saúde. Hoje, a conta de saúde é a segunda maior despesa das grandes empresas, a primeira é a folha de pagamento. Hoje a população tem envelhecido mais e usa cada vez mais os serviços de saúde, porque antes as pessoas não iam ao médico, agora, qualquer crise de enxaqueca ou 37,5 graus de febre, corre-se para o pronto-socorro. A demanda por serviços de saúde cresceu exponencialmente e os recursos são limitados. A única alternativa para não quebrar o sistema de saúde é por meio da prevenção.

 

Por que se criou essa cultura de pronto-socorro na sociedade brasileira? No setor público, a superlotação é inevitável, mas tem se notado um aumento na procura do pronto-atendimento também na rede privada.

 

Os usuários do SUS é mais fácil explicar. Quando uma pessoa tem uma dor de garganta, se dirige a uma Unidade Básica de Saúde e marca uma consulta para 15 ou 20 dias depois. Ela não vai esperar esse tempo todo e acaba indo para o pronto-socorro. Na vez seguinte, a pessoa nem vai mais ao ambulatório, acaba indo direto ao hospital e o que se vê são aquelas cenas de corredores lotados, mas se for conversar um por um, dois terços daquelas pessoas não precisavam estar ali.

Entre os usuários de planos de saúde acaba acontecendo algo semelhante, porque as pessoas querem ser atendidas imediatamente. E para ser atendido de imediato, basicamente é o pronto-atendimento quem pode suprir essa necessidade.

Acredito que falta um pouco de educação em saúde para a população, de informar mais as pessoas, tranquilizá-las, oferecer um pré-atendimento por telefone que possa resolver o problema e impedir que um grande número de pessoas se dirija ao hospital. Ninguém gosta de ir num sábado à noite e ficar duas ou três horas num pronto-socorro esperando atendimento.

Com um sistema de comunicação ágil, com gente capacitada que possa fornecer orientações adequadamente e avaliar a necessidade de um atendimento presencial ou solucionar por telefone.

 

Será que um tratamento de choque não mudaria essa cultura? Por exemplo, mostrar o ciclo vicioso da utilização intensiva dos serviços de saúde que impacta no custo da operadora, que repassa os custos para o preço final do plano, ou seja, se utilizar demais e desnecessariamente, vai ficar mais caro?

 

É difícil as pessoas entenderem isso porque o Brasil tem uma cultura de que saúde não custa nada. As pessoas pagam o plano de saúde e acreditam que possam usar livremente como um cheque em branco. E não é só a questão do pronto-atendimento, também os exames. Eu canso de ver pessoas que vão fazer um hemograma e o paciente pede para fazer todas os exames possíveis, só porque tem plano de saúde. Isso não é bom, porque há exames que são contraditórios e podem gerar um erro de diagnóstico. Depois, há uma cultura geral entre os pacientes que quanto mais exames, melhor, e os médicos acabam caindo nessa. Por que? Em geral, os planos de saúde pagam mal os médicos, de modo que precisam ganhar na quantidade. Como se passa essa sensação de que a pessoa está sendo bem atendida numa consulta de dez minutos? Solicitando exames, porque a pessoa se sente confortável com o resultado. Só que na hora de marcar o exame, outras tantas pessoas fizeram a mesma coisa, criando uma bola de neve, a demanda vai subindo, fazendo com que os serviços se expandam exponencialmente. Tem-se visto uma expansão enorme dos laboratórios, e os médicos mais jovens sentem-se mais atraídos por esse tipo de trabalho, porque trabalham em horário fixo, acabou vai embora para casa, ninguém telefona, não precisa ficar atendendo doentes e assumindo responsabilidades.

 

O senhor fala muito na prática de atividades físicas. De que forma isso impacta diretamente a qualidade de vida?

 

O corpo humano não foi feito para ficar parado. Paga-se um preço muito alto para ficar o dia inteiro sentado. As pessoas passam muito tempo sentadas e isso vai acumulando e tornando a condição física cada vez mais precária, com as pessoas tendo problemas de saúde cada vez mais cedo. A vida sedentária tem um peso grande, os problemas não surgem mais aos 70 anos, aos 30 já se observam patologias que deveriam aparecer só mais adiante.

Existem muitas medidas a serem tomadas, mas a mais importante é parar de fumar. Não há nenhuma intervenção que tenha resultados tão positivos. Se considerarmos que a prevalência de consumo do cigarro vem diminuindo cada vez mais na sociedade brasileira, a atividade física passa a ser mais necessária ainda.

 

O fato de as pessoas ficarem muito tempo na cadeira, trabalhar no computador, faz com que seja mais difícil sair do escritório para praticar corrida ou exercícios físicos, talvez para o corpo seja mais complicado criar esse novo hábito?

 

Para o corpo sempre é complicado desperdiçar energia. Ninguém faz exercício por prazer. Eu, por exemplo, faço por necessidade. Não gosto de levantar às cinco da manhã e sair correndo. Faço porque estou convencido de que é bom, me ajuda e com isso envelheço melhor. Fazer exercício não dá prazer, a pessoa fica com falta de ar, faz força, isso não dá prazer. O que dá prazer é o resultado obtido depois, um corpo bonito, saudável.

 

Por Vanderlei Abreu.

Fonte: Meta News.

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